Era bom o bastante para mais um tricampeonato: entre 53 e 55, só deu Flamengo. Outra vez, o timaço foi desfeito, e o rubro-negro precisou esperar mais algum tempo até que a geração de Carlinhos, Nelsinho, Gérson e Almir Pernambuquinho desse ao clube seu primeiro título fora do Estado, o Rio-São Paulo de 61, e os títulos estaduais de 63 e 65. Depois daquilo, nos anos seguintes, o grande time do Botafogo tomou conta do Estado, e o feito mais digno de nota (ainda que negativa) por parte de um flamenguista foi a briga dantesca iniciada por Almir Pernambuquinho no Maracanã em 66, num jogo contra o Bangu.
As duas coisas parecem distantes uma da outra, mas a verdade é que aquela entressafra do final da década de 60 foi o que preparou a ascensão do grupo que faria do Mengo um dos clubes mais vencedores do Brasil. Ainda em 67, chegava ao juvenil da equipe, fraquinho e aparentemente inofensivo, um habilidoso meia nascido no bairro de Quintino.
Zico estreou entre os profissionais no ano de 71 e foi absolutamente coadjuvante no título carioca de 72 – ano em que Jorge Bem imortalizou o desengonçado e adorado Fio Maravilha. Foi só dois anos depois, em mais uma conquista rubro-negra, que o garoto passou a ser titular. Em outra vitória, a de 78 – com gol do “Deus da raça” Rondinelli – Zico já brilhava, comandando aquilo que seria um tricampeonato, junto a Júnior, Andrade, Nunes, Cláudio Adão e Tita, além dos veteranos Raul Plassmann e Carpegiani. Com um esquadrão e a moral de quem era tricampeão estadual, o Mengo viveu seu período perfeito: conquistou seu primeiro Brasileirão em 80, ao derrotar o Atlético-MG, e assim se classificou para a Libertadores do ano seguinte. Com Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico, não havia quem pudesse com o rubro-negro: nem o Cobreloa na decisão da Libertadores, nem os ingleses do Liverpool, na final da Copa Intercontinental no Japão: com dois de Nunes e um de Adílio, um 3 x 0 implacável fez do Mengo o segundo clube brasileiro após o Santos de Pelé a ser coroado como melhor do mundo. A equipe praticamente se manteve inalterada, e isso era sinônimo de mais conquistas: time nenhum no Brasil podia com o Flamengo, o que ficou comprovado com mais dois títulos nacionais, em 82 e 83.
A saída de Zico para a Udinese, da Itália, poderia ter significado o fim daqueles ótimos tempos. Mas nem o Galinho de Quintino queria que fosse assim, nem as categorias de base do Flamengo permitiriam: em 85, Zico retorna ao Flamengo e capitaneia uma geração brilhante, com Aldair, Leonardo, Jorginho, Bebeto, Zinho e Renato Gaúcho. Poderia ser a geração que conquistou o quarto título brasileiro daquela década, mas a malfadada “Copa União”, com seus módulos verde e amarelo não permitiu que fosse exatamente assim. Oficialmente, para a CBF, o campeão brasileiro daquele ano é o Sport, que não enfrentou nenhuma grande equipe do futebol do País. Foi a última conquista de Zico antes de sua aposentadoria, em 89. Restou, para comandar o time à base de experiência e sabedoria, Júnior: transformado em meio-campista depois de veterano, ele foi a alma por trás da geração de jovens recém-saídos do juvenil que levantou a Copa do Brasil de 1990, ao derrotar o Goiás: Djalminha, Marquinhos, Júnior Baiano, Paulo Nunes, Nélio, Piá...
Com eles todos, mais Gaúcho e o já experiente Zinho, o Flamengo seguiu passo a passo a batuta do maestro Júnior e venceu, agora de forma oficial, seu quarto Brasileirão: um inesquecível 3 x 0 sobre o Botafogo no primeiro jogo – dia em que parte da arquibancada do Maracanã tragicamente desabou – abriu o caminho para o título brasileiro de 92.
O centenário do clube até pareceu dar motivos para comemoração: melhor jogador do mundo na época, Romário foi tirado do Barcelona e chegou a um time que prometia mundos e fundos à torcida. Acabou foi frustrado pelo gol de barriga marcado por Renato Gaúcho para o Fluminense, na vitória por 3 x 2 na decisão do estadual. Em vez de investir no que vinha dando certo há décadas – a formação de um verdadeiro time, parte com contratações, parte com jovens da divisão de base -, o então presidente Kléber Leite insistiu na política do gasto financeiro e dessa vez trouxe Edmundo. Junto com o prata da casa Sávio, aquele supostamente seria o melhor ataque do mundo, mas virou uma das piadas preferidas de todo rival flamenguista. Só no ano seguinte ao do centenário, 1996, é que o Mengo volta a vencer: com Djair, Iranildo e Amoroso, termina o carioca invicto. Entram e saem jogadores, dinheiro é depositado e sacado dos cofres do Flamengo num ritmo alucinante. Assim acabou o mandato de Kléber Leite e de forma parecida começou o do próximo presidente, Edmundo Santos Silva: Rodrigo Mendes, Lê e Reinaldo, revelados na Gávea, dão o título da Copa Mercosul de 1999 ao time, mas um contrato fechado no fim daquele ano com a empresa de marketing esportivo suíça ISL possibilitou a chegada de mais reforços grandiosos para se juntarem a nomes como Athirson e Fábio Baiano.
Alguns tiveram brilho momentâneo, como Edílson, Gamarra e Vampeta, e alguns foram verdadeiros ídolos de um tricampeonato 99/01 que foi fechado com a melhor chave de ouro imaginável: um gol espetacular, de falta, aos 44 minutos do segundo tempo, contra o Vasco. O sérvio Petkovic, que já era querido da torcida, nesse dia virou definitivamente um dos heróis rubro-negros.
Foto: Vipcomm
Petkovic escreveu sua história no Fla
Começou, então, outra fase de sofrimento; este inédito e maior do que nunca: a ISL faliu e deixou o clube órfão de parceiro; Edmundo Santos Silva foi afastado do cargo, acusado de desvio de verba; o Mengo esteve perto do rebaixamento no Brasileirão. Os altos e baixos passaram a ser o padrão: duas finais de Copa do Brasil – 2003 e 2004 – e um título carioca comandado por Ibson, Felipe, Jean e Zinho. Após um ano que se aproximou do desastre no Brasileiro, a segunda Copa do Brasil viria em 2006, quando se destacariam Jônatas, Renato e o já folclórico Obina.
O ano de 2007 parece trazer o conceito de time de volta à Gávea: Leonardo Moura, Renato Augusto, Fábio Luciano, Juan, Souza e companhia são a esperança de, cada vez mais, o Flamengo ter novos dias de sucesso estável e constante. Essa virada culmina com a conquista do hexacampeonato em 2009, capitaneado por Adriano, artilheiro da competição, e Petkovic.
No ano seguinte, com a disputa da Copa Libertadores como objetivo principal, o clube passou a ser comandado pela presidente Patrícia Amorim, a primeira mulher eleita para o cargo na história do Flamengo. A eliminação da competição, a perda do Campeonato Carioca para o Botafogo e problemas fora de campo, como a prisão do goleiro Bruno, acabaram com a esperança de um ano de glórias. Nem Zico, contratado em junho para ser diretor de futebol, resistiu e pediu demissão dois meses depois. O técnico Vanderlei Luxemburgo foi contratado pela terceira vez para dirigir o time e, aos trancos e barrancos, conseguiu se livrar do rebaixamento e ainda a classificação para a Copa Sul-Americana.
A esperança do clube é a reestruturação geral, incluindo a finalização do centro de treinamento e o investimento nas categorias de base. Depois de conquistas consecutivas desde 2006, a torcida voltou a ficar um ano sem festejar. A expectativa é de que o sofrimento não dure além de 2010.
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